sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Baraúnas em seis anos: do acesso a Série C ao rebaixamento no Estadual Parte 3

O Baraúnas foi rebaixado para a segundo divisão do Campeonato Estadual em 2018. Foto: Allan Phablo

Esta terceira e última parte da reportagem especial sobre os último seis anos do Baraúnas, vamos abordar o trágico ano de 2018, que culminou na queda do clube para a segunda divisão do Campeonato Estadual.
Também será abordado a intervenção no clube e o que esperar para os próximos anos.

- 2018: ano do rebaixamento

Campeão estadual em 2006 e um dos principais clubes do futebol do Rio Grande do Norte, o Baraúnas nunca havia sido rebaixado no Campeonato Estadual. O Leão do Oeste licenciou-se algumas vezes ao longo de sua história da competição, mas cair dentro de campo ainda não tinha ‘saboreado esse gostinho’.

O ano de 2018 marcou o primeiro rebaixamento do clube no certame potiguar. Com uma péssima campanha, o descenso foi se desenhando rodada a rodada até o jogo contra o Assu no Edgarzão, válido pela sexta rodada do segundo turno, decretar a queda leonina à segunda divisão do Campeonato Estadual.

Ainda no começo da pré-temporada o técnico Cícero Ramalho, em entrevista ao programa Tela Esportiva, da TCM, já avisava que o pior poderia ocorrer. Naquele programa, exibido em 14 de dezembro de 2017, Ele afirmou que o objetivo do tricolor para o Estadual de 2018 seria a luta contra o rebaixamento. O treinador fez essa projeção com base nas dificuldades financeiras com as quais o Baraúnas estava passando.

“A briga é para não cair, essa é a realidade; não estou aqui para enganar o torcedor”, disse Ramalho.

No entanto, Ramalho, talvez pressentindo que o iminente rebaixamento, largou o clube há menos de duas semanas para o pontapé inicial do certame. Ele alegou projeto pessoal para deixar a equipe.

O jornalista Marcos Santos ressalta que o rebaixamento do Baraúnas ‘começou antes da bola rolar’, quando o clube decidiu ‘ir para a competição sem nenhuma condição’.

“O Baraúnas foi rebaixado ante de a bola rolar, quando decidiu ir para o campeonato sem a menor condição. A diretoria confirmou a participação faltando 20 dias para o evento começar, o próprio Cícero Ramalho, técnico anunciado para treinar a equipe, mas desistiu, havia falado justamente da falta de uma estrutura até mesmo básica, afirmando que a luta do Baraúnas era contra o rebaixamento. Aqueles 7x0 aplicados pelo ABC dentro do Nogueirão, nunca visto nem mesmo no período de alto favoritismo da capital sobre o interior, foi prenúncio da queda do Leão”, frisou.

A solução encontrada pela cúpula leonina foi contratar o técnico Agnaldo Fidélis, que treinou o time em cinco jogos no campeonato de 2016. À época, ele atuava como auxiliar técnico e foi efetivado após a saída de Givanildo Sales.

“Minha chegada acredito eu que tenha sido por dois motivos. O primeiro foi o trabalho que a gente fez no final do campeonato do ano anterior (2017), onde eu estava como auxiliar e substitui Givanildo Sales. Naquele momento, conseguimos ter vitórias em jogos importantes, como, primeira vitória contra o Globo, vitória contra o América e ABC. O segundo motivo acredito eu que tenha sido a falta de condições financeiras para contratar um treinador com o salário maior”, revelou Fidélis.

Fidélis ficou no comando do Baru por apenas três rodadas no certame 2018 do Potiguarzão. Na estreia, o clube perdeu para o Globo por 3 a 0. Já na segunda rodada, o Leão seria derrotado novamente. Desta vez, o algoz foi o América. Placar de 1 a 0, no Nogueirão.

O estopim para a demissão de Agnaldo Fidélis foi a impiedosa goleada sofrida para o ABC. Na noite da quarta-feira, dia 25 de janeiro, o Baraúnas sofria sua pior derrota na história do Campeonato Estadual: 7 a 0. Os gols da grande vitória foram marcados por Matheus (3), Wallyson (2), Fessin e Jorge Eduardo.

Agnaldo Fidélis não resistiu e caiu no dia seguinte. Ele conta o que houve naquela fatídica noite.

“Aquela derrota, foi algo atípica, realmente foi algo que até hoje me pergunto o apagão que se deu naquele momento, mas enfim, a gente tinha feito bons jogos contra o Globo e depois contra o América, apesar das derrotas, mas o que destaco foi o comportamento tático, contra o ABC era a terceira rodada, já existia um leque de problemas no clube, com a falta do mínimo onde é sabido por todos, o principal é o atraso de salários, mas entendo que o jogador mesmo com esse acontecimento ninguém entra para perder, e ainda mais do jeito que foi. É algo que fica marcado”, destacou.

Para o lugar de Agnaldo a diretoria do clube trouxe Williams Rodrigues. A estreia dele foi no clássico contra o Potiguar no dia 28 de janeiro. O Potiba terminou empatado em 0 a 0. Esse foi o único ponto conquistado por ele a frente do Leão. Depois foram três derrotas. O revés para o Força e Luz culminou na demissão de Rodrigues.

Já na lanterna da competição, o Baraúnas anunciou Higor Cesar. Ele foi contratado para tentar salvar a equipe do rebaixamento. A estreia de Higor foi contra o América. Derrota por 1 a 0. Na sequência, os mossoroenses enfrentaram o ABC e perderam novamente.

Higor conta como foi chegar ao clube mergulhado numa crise técnica e financeira.

“Cheguei para comandar a equipe do Baraúnas. A equipe só tinha um ponto no campeonato, um gol marcado, um situação horrível dentro da competição naquele momento da minha chegada. Tive só um contato com o grupo e já pegamos dois jogos fora de casa contra América e ABC, onde conseguimos fazer bons jogos, mas não conseguimos os resultados que queríamos. Logo depois tivemos o clássico. Conseguimos fazer outro bom jogo, mas não saímos vencedor. Conseguimos uma vitória dentro de casa contra o Globo, que deu confiança boa no grupo para ir as últimas rodadas com chances de livrar do rebaixamento”.

A primeira e única vitória leonina no Estadual de 2018, citada por Higor Cesar, foi contra o Globo. Em partida adiada da primeira rodada do segundo, o Baraúnas bateu o Globo por 2 a 1 e deu ainda esperança a seu torcedor de que a equipe sairia daquela situação terrível que passava.

“Tínhamos um grupo limitado, fruto de um planejamento totalmente errado. Tentei ajudar da melhor maneira possível. Enfim, pegamos o clube num situação horrível e, infelizmente, não conseguimos livrar (o time do rebaixamento)”, completou.

Porém, a goleada sofrida para o Assu quatro dias depois decretou o primeiro rebaixamento da equipe na competição estadual. O Leão perdeu por 4 a 1. A partida foi válida pela sexta rodada do segundo turno e disputada no estádio Edgarzão.

O clube ainda lutava contra a degola naquela oportunidade, mas o revés diante do Camaleão do Vale foi o suficiente para o descenso do tricolor mossoroense. Os mossoroenses somavam apenas quatro pontos na classificação geral e não poderiam mais alcançar o Força e Luz, que tinha dez pontos no geral naquela altura.

Se vencesse o Assu na tarde daquele domingo, o time mossoroense enfrentaria o Força e Luz dependendo apenas de suas forças para se livrar do rebaixamento a segunda divisão do futebol potiguar. Mas a derrota sepultou a possibilidade deste jogo valer ‘como uma decisão’ para o tricolor.

Treinador que caiu com o time mossoroense, Higor Cesar lamentou a situação em que encontrou a equipe e disse que procurou fazer o melhor possível para evitar a queda de um dos clubes mais tradicionais do estado.

“As dificuldades extracampo, como salários atrasados, logísticas erradas e outras coisas a mais que existiram dentro do clube fez com que refletisse dentro de campo. Realmente isso foi o fator determinante para o rebaixamento do clube. Qualquer clube que tiver financeiramente horrível da forma que estava o Baraúnas, provavelmente, aconteceria a mesma coisa”, disse o treinador do clube à época. Ele acrescenta.

“Tenho uma admiração pelo clube e espero um dia voltar a comandar o Baraúnas e fazer um bom trabalho. O Baraúnas tem que voltar o mais rápido possível para o lugar de onde nunca era para ter saído, que é de primeira divisão do Campeonato Potiguar”.

O atual interventor do Baraúnas, Damásio Medeiros, enfatiza que a queda do Leão do Oeste para a segunda divisão “foi consequência de erros”.

“Já o rebaixamento (no Campeonato Estadual) foi consequência de erros, mas não culpo ninguém, pois sempre tenho dito que ninguém faz um time para ser rebaixado. Há quem diga que sim que tudo foi de caso pensado, mas eu, particularmente, não acredito nisso”.

Agnaldo Fidélis adota uma postura parecida com a de Damásio, mas é mais contundente as críticas a diretoria que comandou o clube na campanha do rebaixamento.

“Bem o rebaixamento é algo que ninguém gosta, é algo lamentável, mas tudo isso foi o reflexo da má administração dos dirigentes, um planejamento mal feito, e tudo em cima da hora, e olhando bem nesse momento, vejo como benéfico, assim o clube recomeça já que esse ano bateram todos recordes de erros, onde o resultado foi o rebaixamento, mas enfim torço que o clube volte logo a figurar na elite do futebol local e que minimizem os erros e consiga trazer de volta o maior patrimônio do clube que é o torcedor, até porque todos passam, mas o torcedor é eterno com seu amor”.

- O que esperar para os próximos anos

Após consumado o rebaixamento, um grupo de sete pessoas pediu a justiça a intervenção do Baraúnas. No dia 29 de maio, o juiz Edino Jales, da 1ª Vara Cível de Mossoró, deu parecer favorável a pedido de intervenção protocolado desde o dia 17 de abril passado por um grupo de sete pessoas. Nicolo Damásio de Melo Medeiros foi nomeado pelo juiz.

Damásio Medeiros explica como esse grupo se reuniu e encontrou a situação do tricolor. 

“Um grupo de torcedores apaixonados e triste com a situação do clube começou a procurar saber a fundo a real situação do Baraúnas. Nessa busca se depararam com dívidas que vinham em cascata e que algumas diretoria contraiam dívidas em nome do clube e simplesmente não pagavam. Isso foi criando uma bola de neve e percebíamos que os abnegados estavam saindo de perto do clube por não acreditar nos gestores. Isso foi afundando o clube. Creio que o modelo de gestão sem prestação de contas gerou desconfiança dos abnegados e da torcida. Então, o pedido de intervenção era inevitável, pois o Baraúnas estava afundando a cada dia. Para tentar salvar o patrimônio do clube não restou outra alternativa a não ser pedir judicialmente a intervenção e paralisar tudo que estava acontecendo”.

Segundo o Portal F9, um levantamento preliminar, divulgado à época, nas quatro varas que compõem a Justiça do Trabalho, confirmaram 55 ações contra o clube. Dessas, 13 já executadas e 42 em curso de execução. São ações de jogadores e funcionários que não receberam seus direitos quando serviram ao clube. Os valores não foram informados ainda, mas estima-se que o montante ultrapasse R$ 1 milhão.

Rebaixado para a Série B do Campeonato Estadual e ainda com o futuro incógnito, o Baraúnas precisa trilhar um caminho para voltar a ser um time da elite do futebol potiguar.

Atolado em dívidas, o Leão do Oeste já ficou fora da 2ª divisão do Estadual neste ano e ainda não há notícias de que o clube vem a participar da competição em 2019. Damásio Medeiros informou que, como interventor, terá pouco tempo para tentar solucionar os problemas encontrados no Leão do Oeste.

“Como interventor terei pouco tempo pra conseguir fazer com que o Baraúnas saía das dívidas. Nesses 40 dias que estamos à frente já conseguimos quitar algumas dívidas, mas muito longe de resolver tudo até porque as dívidas do Baraúnas são de várias gestões e que se agravou nesse (ano de 2018) e que deu no que deu. A intervenção vai até o dia 5 de outubro de 2018. Neste dia devemos eleger um novo presidente”.

O jornalista Marcos Santos atenta para que as novas pessoas que venham a dirigir o clube arrumem a casa e possa desenvolver ‘uma gestão profissional’.

“Primeiro, se reorganizar, pagar as dividas, arrumar a casa. Quando voltar às competições, fazer diferente, compreender que futebol é produto e como produto, precisa ter gestão profissional, convicção no trabalho, no projeto. Criar receitas, negociar atletas descobertos em casa, ter perspectivas para fazer o trabalho seguir. Times de menor porte conseguem se organizar, vender atletas para o exterior, ter uma estrutura, e se isso é possível lá também pode ser aqui. O que não pode é meter os pés pelas mãos, fazendo as coisas de forma inadequada.

Guerra Júnior diz que o clube chegou ao fundo do poço, mas acredita que as pessoas que estão chegando à nova diretoria possam reestruturar o tricolor.

“O Baraúnas chegou ao fundo do poço e agora vem uma nova geração de torcedores a assumir o clube, aqueles que eram mal vistos por alguns, por seu viés crítico. Duvidaram que eles teriam chance de ter um cargo de gestão no Baraúnas e eles estão enfrentando o desafio. Os primeiros passos têm agradado e o clube parece que inicia uma reestruturação, depois de chegar no fundo do poço, com dívida milionária e sem o mínimo de organização de documentos.”

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